Em 5 de maio de 1818, nascia Karl Marx. Marx e Engels, no final da década de 40 do século XIX, tornaram-se os representantes das posições políticas e teóricas do proletariado, posições estas resultantes do processo histórico e social. E, nesse sentido, iniciaram, fundaram uma nova ciência, o marxismo, o materialismo histórico (ciência da história) e o materialismo dialético, enquanto expressão da luta de classes proletária, da ideologia proletária em luta com a ideologia burguesa. Em homenagem aos 187 anos do nascimento de Marx, reproduzimos extrato do artigo Karl Marx (uma Breve nota biográfica com uma exposição do marxismo), de Lênin, escrito em 1914. Neste artigo, Lênin assinala: “(...) [Marx e Engels] redigiram o célebre Manifesto do Partido Comunista, publicado em Fevereiro de 1848. Esta obra expõe, com uma clareza e um vigor geniais, a nova concepção do mundo, o materialismo conseqüente aplicado também ao domínio da vida social, a dialética como a doutrina mais vasta e mais profunda do desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do papel revolucionário histórico universal do proletariado, criador de uma sociedade nova, a sociedade comunista”. Vale a pena ler o artigo na íntegra.
KARL MARX (Breve Nota Biográfica)*
Vladimir Ilitch Lênin
Karl
Marx nasceu em 5 de Maio de 1818 em Trier (Prússia renana). O pai, advogado,
israelita, converteu-se em 1824 ao protestantismo. A família, abastada e culta,
não era revolucionária. Depois de ter terminado os seus estudos no liceu de
Trier, Marx entrou na Universidade de Bona e depois na de Berlim; aí estudou
direito e, sobretudo, história e filosofia. Em 1841 terminava o curso
defendendo uma tese de doutoramento sobre a filosofia de Epicuro. Eram, então,
as concepções de Marx as de um idealista hegeliano. Em Berlim, aderiu ao
círculo dos "hegelianos de esquerda"[1] (Bruno Bauer e outros) que
procuravam tirar da filosofia de Hegel conclusões atéias e revolucionárias.
Ao
sair da Universidade, Marx fixou-se em Bona, onde contava tornar-se professor.
Mas a política reacionária de um governo que, em 1832, tinha tirado a Ludwig
Feuerbach a sua cadeira de professor, recusando-lhe novamente o acesso à
Universidade em 1836 e que, em 1841, proibira o jovem professor Bruno Bauer de
fazer conferências em Bona, obrigou Marx a renunciar a uma carreira
universitária. Nessa época, o desenvolvimento das idéias do hegelianismo de
esquerda fazia, na Alemanha, rápidos progressos. A partir, sobretudo, de 1836
Ludwig Feuerbach começa a criticar a teologia e a orientar-se para o materialismo,
a que, em 1841, adere completamente (A
Essência do Cristianismo); em 1843 aparecem os seus Princípios da Filosofia do Futuro.
"É preciso (...) ter vivido a influência emancipadora" desses livros,
escreveu mais tarde Engels, a propósito destas obras de Feuerbach.
"Nós", (isto é, os hegelianos de esquerda, entre eles Marx)
"imediatamente nos tornamos feuerbachianos."[2] Nessa altura os
burgueses radicais da Renânia, que tinham certos pontos de contacto com os
hegelianos de esquerda, fundaram em Colônia um jornal de oposição, a Gazeta Renana[3] (que
apareceu a partir de 1 de Janeiro de 1842). Marx e Bruno Bauer foram os seus
principais colaboradores e, em Outubro de 1842, Marx tornou-se o redator-chefe,
mudando-se então de Bona para Colônia. Sob a direção de Marx, a tendência
democrática revolucionária do jornal acentuou-se cada vez mais e o governo
começou por submetê-lo a uma dupla e mesmo tripla censura e acabou por ordenar
a sua suspensão completa a partir de 1 de janeiro de 1843. Por essa altura, Marx
viu-se obrigado a deixar o seu posto de redator, mas a sua saída não salvou o
jornal, que foi proibido em março de 1843. Entre os artigos mais importantes
que Marx publicou na Gazeta
Renana, além dos que indicamos mais adiante (ver Bibliografia[4]), Engels
cita um sobre a situação dos vinhateiros do vale do Mosela[5]. A sua atividade
de jornalista tinha feito compreender a Marx que seus conhecimentos de economia
política eram insuficientes e por isso lançou-se a estudá-la com ardor.
Em
1843, Marx casou-se, em Kreuznach, com Jenny von Westphalen, amiga de infância,
de quem já era noivo desde o tempo de estudante. Sua mulher pertencia a uma
família nobre e reacionária da Prússia. O irmão mais velho de Jenny vou
Westphaleu foi ministro do interior na Prússia numa das épocas mais
reacionárias, de 1850 a
1858. No Outono de 1843, Marx foi para Paris a fim de editar no estrangeiro uma
revista radical em colaboração com Arnold Ruge (1802-1880; hegeliano de
esquerda, preso de 1825 a
1830; emigrado depois de 1848 e partidário de Bismarck depois de 1866-1870).
Mas só apareceu o primeiro fascículo desta revista, intitulada Anais Franco-Alemães[6],
que teve de ser suspensa por causa das dificuldades com sua difusão clandestina
na Alemanha e de divergências com Ruge. Nos artigos de Marx publicados pela
revista, ele aparece-nos já como um revolucionário que proclama "a crítica
implacável de tudo o que existe" e, em particular, "a crítica das
armas"[7], e apela para as massas
e o proletariado.
Em
setembro de 1844, Friedrich Engels esteve em Paris por uns dias, e desde então
se tornou o amigo mais íntimo de Marx. Ambos tomaram uma parte muito ativa na
vida agitada da época dos grupos revolucionários de Paris (especial importância
assumia então a doutrina de Proudhon[8], que Marx submeteu a uma crítica
impiedosa na sua obra Miséria
da Filosofia, publicada em 1847) e, numa árdua luta contra as
diversas doutrinas do socialismo pequeno-burguês, elaboraram a teoria e a
tática do socialismo proletário revolucionário ou comunismo (marxismo).
Vejam-se as obras de Marx desta época, 1844-1848, mais adiante na Bibliografia. Em 1845, a pedido do governo
prussiano, Marx foi expulso de Paris como revolucionário perigoso. Foi para
Bruxelas, onde fixou residência. Na Primavera de 1847, Marx e Engels
filiaram-se a uma sociedade secreta de propaganda, a "Liga dos
Comunistas"[9], tiveram papel destacado no II Congresso desta Liga
(Londres, Novembro de 1847) e por incumbência do Congresso redigiram o célebre Manifesto do Partido Comunista,
publicado em fevereiro de 1848. Esta obra expõe, com uma clareza e um vigor
geniais, a nova concepção do mundo, o materialismo conseqüente aplicado também
ao domínio da vida social, a dialética como a doutrina mais vasta e mais
profunda do desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do papel
revolucionário histórico universal do proletariado, criador de uma sociedade
nova, a sociedade comunista.
Quando
eclodiu a revolução de fevereiro de 1848[10], Marx foi expulso da Bélgica.
Regressou novamente a Paris, que deixou depois da revolução de março[11] para
voltar à Alemanha e fixar-se em
Colônia. Foi aí que apareceu, de 1 de Junho de 1848 até 19 de
Maio de 1849, a
Nova Gazeta Renana[12],
de que Marx foi o redator-chefe. A nova teoria foi brilhantemente confirmada
pelo curso dos acontecimentos revolucionários de 1848-1849 e posteriormente por
todos os movimentos proletários e democráticos em todos os países do mundo. A
contra-revolução vitoriosa arrastou Marx ao tribunal (foi absolvido em 9 de
fevereiro de 1849) e depois o expulsou da Alemanha (em 16 de maio de 1849).
Voltou então para Paris, de onde foi igualmente expulso após a manifestação de
13 de junho de 1849[13], e partiu depois para Londres, onde viveu até ao fim
dos seus dias.
As
condições desta vida de emigração eram extremamente penosas, como o revela com
particular vivacidade a correspondência entre Marx e Engels (editada em 1913).
Marx e a família viviam literalmente esmagados pela miséria; sem o apoio
financeiro constante e dedicado de Engels, Marx não só não teria podido acabar O Capital, como teria
fatalmente sucumbido à miséria. Além disso, as doutrinas e as correntes
predominantes do socialismo pequeno-burguês, do socialismo não proletário em
geral, obrigavam Marx a sustentar uma luta implacável, incessante e, por vezes,
a defender-se mesmo dos ataques pessoais mais furiosos e mais absurdos (Herr
Vogt[14]). Conservando-se à margem dos círculos de emigrados, Marx desenvolveu
numa série de trabalhos históricos (ver Bibliografia)
a sua teoria materialista, dedicando-se, sobretudo ao estudo da economia
política. Revolucionou esta ciência (ver a seguir o capítulo acerca da doutrina
de Marx), nas suas obras Contribuição
para a Crítica da Economia Política (1859) e O Capital (t.I,1867).
A
época da reanimação dos movimentos democráticos, no final dos anos 50 e nos
anos 60, levou Marx a voltar ao trabalho prático. Foi em 1864 (em 28 de
setembro) que se fundou em Londres a célebre I Internacional, a
"Associação Internacional dos Trabalhadores". Marx foi a sua alma,
sendo o autor do primeiro "Apelo" [15] e de um grande número de
resoluções, declarações e manifestos. Unindo o movimento operário dos diversos
países, procurando orientar numa via de atividade comum as diferentes formas do
socialismo não proletário, pré-marxista (Mazzini, Proudhon, Bakunin, o
trade-unionismo liberal inglês, as oscilações dos lassallianos para a direita
na Alemanha, etc.) combatendo as teorias de todas estas seitas e escolas, Marx
foi forjando uma tática única para a luta proletária da classe operária nos
diversos países. Depois da queda da Comuna de Paris (1871) - a qual Marx
analisou (em A Guerra Civil em França, 1871) de uma
maneira tão penetrante, tão justa, tão brilhante, tão eficaz e revolucionária -
e depois da cisão provocada pelos bakuninistas[16], a Internacional não pôde
continuar a subsistir na Europa. Depois do Congresso de 1872 em Haia, Marx
conseguiu a transferência do Conselho Geral da Internacional para Nova lorque.
A I Internacional tinha cumprido a sua missão histórica e dava lugar a uma
época de crescimento infinitamente maior do movimento operário em todos os
países do mundo, caracterizada pelo seu desenvolvimento em extensão, pela
formação de partidos socialistas operários de massas no quadro dos diversos
Estados nacionais.
A
sua atividade intensa na Internacional e os seus trabalhos teóricos, que
exigiam esforços ainda maiores, abalaram definitivamente a saúde de Marx.
Prosseguiu a sua obra de transformação da economia política e de acabamento de O Capital, reunindo uma
massa de documentos novos e estudando várias línguas (o russo, por exemplo),
mas a doença impediu-o de terminar O
Capital.
A
2 de dezembro de 1881, morre a sua mulher. A 14 de Março de 1883, Marx
adormecia pacificamente, na sua poltrona, para o último sono. Foi enterrado
junto de sua mulher no cemitério de Highgate, em Londres. Vários
filhos de Marx morreram muito jovens, em Londres, quando a família atravessava
uma grande miséria. Três das suas filhas casaram com socialistas ingleses e
franceses: Eleanor Aveling, Laura Lafargue e Jenny Longuet; um dos filhos desta
última é membro do Partido Socialista Francês.
[1] Hegelianos de esquerda ou jovens hegelianos: corrente idealista na filosofia alemã dos anos 30-40 do século XIX, que procurava tirar conclusões radicais da filosofia de Hegel e fundamentar a necessidade de transformação burguesa da Alemanha. O movimento dos jovens hegelianos era representado por D. Strauss, B. e E.Bauer, M. Stirner e outros. Durante certo tempo, também L. Feuerbach partilhou as suas idéias, bem com K. Marx e F. Engels na sua juventude, os quais, rompendo posteriormente com os jovens hegelianos, submeteram à crítica a sua natureza idealista e pequeno-burguessa
[2] F. Engels , Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã.
[3] Rheinische Zeitung für Politik, Handel und Gewerbe (Gazeta Renana de Política, Comércio e Indústria), diário que se publicou em Colônia entre 1 de Janeiro de 1842 e 31 de Março de 1843. O jornal foi fundado por representantes da burguesia da Renânia que tinham uma atitude oposicionista para com o absolutismo prussiano. Também alguns hegelianos de esquerda foram atraídos para participarem no jornal. A partir de Abril de 1842, K. Marx colaborou na Gazeta Renana, e a partir de Outubro do mesmo ano tornou-se um dos seus redatores, passando o jornal a revestir-se de um caráter democrático revolucionário. Em Janeiro de 1843, o governo da Prússia decretou o encerramento da Gazeta Renana a partir de 1 de Abril, estabelecendo entretanto uma censura especialmente rigorosa ao jornal. Devido à decisão dos acionistas de lhe atribuir um caráter mais moderado, Marx, em 17 de Março de 1843, declarou que saía da redação.
[4] Trata-se da lista de obras composta por V.I. Lênin para o artigo Karl Marx (que não se inclui na presente edição - N. Ed.).
[5] Trata-se do artigo de K. Marx Justificação do Correspondente do Mosela.
[6] Só apareceu o primeiro fascículo duplo, em fevereiro de 1844. Nele foram publicadas as obras de K. Marx e F. Engels que marcam a sua passagem definitiva para o materialismo e comunismo.
[7] Na introdução ao artigo Contribuição para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Marx escreve: "A arma da crítica não podia evidentemente substituir a crítica das armas, porque a força material não pode ser derrubada senão pela força material; mas, logo que penetra nas massas, a teoria passa a ser, também ela, uma força material."
[8] Doutrina de Proudhon: corrente anticientífica, hostil ao marxismo, do socialismo pequeno-burguês. Criticando a grande propriedade capitalista a partir de posições pequeno-burguesas, Proudhon sonhava com perpetuar a pequena propriedade privada, propunha que fossem organizados os bancos "do povo" e de "troca", que, segundo ele, permitiriam aos operários obter meios de produção próprios, tornar-se artesões e garantir a venda "justa" dos seus produtos. Proudhon não compreendia o papel histórico do proletariado, negava a luta de classes, a revolução proletária e a ditadura do proletariado. Partindo de posições anarquistas, negava também a necessidade do Estado.
[9] Liga dos Comunistas: primeira organização internacional comunista do proletariado, criada sob a direção de Marx e Engels no início de junho de 1847, em Londres em conseqüência da reorganização da Liga dos Justos, associação secreta alemã de operários e artesãos, que seguiu na década de 1830. Os princípios programáticos e de organização da Liga foram elaborados com a participação direta de Marx e Engels, que redigiram também o documento programático, o Manifesto do Partido Comunista, publicado em fevereiro de
[10] Trata-se da revolução burguesa em França, em fevereiro de 1848.
[11] Trata-se da revolução burguesa na Alemanha e na Áustria, que se iniciou em março de 1848.
[12] A Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung) publicou-se em Colônia entre 1 de junho de 1848 e 19 de maio de 1849. O jornal foi dirigido por K. Marx e F. Engels, sendo Marx redator-chefe. A Nova Gazeta Renana, apesar de todas as perseguições e obstáculos por parte da polícia, defendia corajosamente os interesses da democracia revolucionária, os interesses do proletariado. A expulsão de Marx da Prússia em março de 1848 e as perseguições contra os outros redatores da Nova Gazeta Renana foram a causa da cessação da publicação do jornal.
[13] Trata-se da manifestação popular em Paris organizada pelo partido da pequena burguesia ("Montanha") em sinal de protesto contra a inflação, pelo presidente e pela maioria da Assembléia Legislativa, da ordem constitucional estabelecida pela revolução de
[14] Lênin alude ao panfleto de K. Marx Herr Vogt (O Senhor Vogt), escrito em resposta à brochura caluniosa O Meu Processo contra o “Allgemeine Zeitung”, do agente bonapartista K. Vogt.
[15] Trata-se do Manifesto Constituinte da Associação Internacional dos Trabalhadores.
[16] Bakuninismo: corrente cuja denominação deriva do nome de Bakunin, ideólogo do anarquismo, inimigo do marxismo e do socialismo científico. Os bakuninistas travaram uma luta tenaz contra a teoria marxista e contra a tática do movimento operário. A tese principal do bakuninismo é a negação de todo o Estado, incluindo a ditadura do proletariado, e a incompreensão do papel histórico universal do proletariado. Uma sociedade revolucionária secreta constituída por "destacadas personalidades" devia, na opinião dos bakuninistas, dirigir revoltas populares. A sua tática das conjuras e do terror era aventureira e hostil à doutrina marxista da insurreição.
* Parte do artigo KARL MARX (Breve nota biográfica com uma exposição do marxismo) – Escrito em julho-novembro de 1914 – Reproduzido de V.I.Lenine, Obras Escolhidas
Este artigo encontra-se em www.cecac.org.br
28/05/2005
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